NOTÍCIAS
O aquecimento do mercado imobiliário começa a tirar da gaveta um projeto de alto custo de implantação, que poderá pôr fim a um contencioso de longa duração entre os moradores do bairro de mais alto poder aquisitivo de Belo Horizonte e os proprietários da única mina a céu aberto em operação na cidade, a Mineração Lagoa Seca (MLS), da família Pentagna Guimarães.
Com uma autorização para a lavra anual de até 600 mil toneladas de minério, a MLS começou a explorar a dolomita, uma pedra usada como insumo na indústria siderúrgica, em 1951, nas encostas da Serra do Curral. A exploração envolve detonações com dinamite, depósitos de brita e um alto fluxo de caminhões para transporte do material.
A partir dos anos 80, a área começou a ser ocupada por uma avalanche de lançamentos imobiliários de alto padrão, que formaram o bairro do Belvedere. Poucos anos depois, começou a luta de moradores pelo fechamento da mina e pela formação de um grande parque com 5 milhões de metros quadrados, unindo várias áreas com algum vestígio de vegetação na Serra do Curral.
A licença para exploração a céu aberto expira em abril do próximo ano e não deverá ser renovada pela prefeitura. A MLS, em parceria com as construtoras Patrimar e Caparaó, tenta convencer o poder público a autorizar um projeto para a construção de 15 torres residenciais, que devem somar 650 apartamentos, além de dois edifícios comerciais de grande porte.
"Todo o projeto vai obedecer a diversas condicionantes e compensações, e deverá ocupar apenas 30% da área. O custo de construção será alto. O valor de mercado começará em R$ 10 mil o metro quadrado. Suponho que deva ser o lançamento de maior valor já feito em Minas Gerais para construções verticais", afirmou o diretor da Patrimar, Marcelo Martins. Ele estima um valor geral de vendas (VGV) de R$ 2 bilhões.
Se tudo correr como os investidores planejam, a MLS continuará lavrando dolomita, mas empregando o sistema de extração subterrânea, como a mineradora Magnesita faz em área contígua. "A quantidade de minério movimentado cai para um quinto do volume atual e os impactos ambientais decaem na mesma proporção", disse o presidente da MLS, Leonardo Teixeira. A Magnesita também era da família Pentagna Guimarães, até ser integralmente vendida para fundos de investidores em 2007, entre eles a GP Investiments.
Uma área de 1 milhão de metros quadrados será destinada para o empreendimento. O restante será ocupado pelas compensações, como uma ligação viária e um parque com áreas degradadas recuperadas. Entre as compensações que os empreendedores estão se propondo a fazer, está a urbanização da favela do Acaba Mundo, entre os bairros do Sion e do Belvedere.
Tanto a Patrimar quanto a Caparaó são empresas familiares, sem investidores externos. A Patrimar fatura cerca de R$ 300 milhões por ano, sendo aproximadamente a metade no Rio de Janeiro, onde constrói habitações populares dentro do programa "Minha Casa, Minha Vida".
A Caparaó toca atualmente sete empreendimentos e não abre números sobre a empresa, com valor geral de vendas estimado em R$ 149 milhões. De propriedade de Ney Bruzzi, a empresa deu publicidade a seu último resultado em 2007, quando comemorou o cinquentenário e faturou na ocasião R$ 112 milhões.
A MLS integra a holding Unitas, um dos braços formado pela família Pentagna Guimarães para abrigar seus diferentes ramos de negócios. A receita proporcionada pela venda de dolomita não é alta: em 2009 representava R$ 10 milhões, segundo informou à época Lúcio Pentagna Guimarães Neto, que dirigia a empresa na ocasião.
A dolomita refratária é um minério raro no Brasil, utilizado na indústria siderúrgica e na de automóveis, como um insumo para a obtenção do magnésio metálico, mas a oferta do produto pela China acaba controlando o preço e o volume da produção brasileira.
Na última renovação de licença dada à MLS em 2005, o conselho municipal ambiental da prefeitura estabelecia 32 condicionantes que teriam que ser cumpridas pela mineradora, entre elas a destinação da área da mineração para "uso público coletivo". Para os empreendedores, o projeto não quebra este compromisso. "Se nós vamos construir dentro da área uma ligação viária, isso é um exemplo de uso público coletivo. Não há necessidade de tudo ser convertido em parque", afirmou a diretora de planejamento da Caparaó, Maria Cristina Valle.
Já o Ministério Público vê todo o investimento com grandes reservas. "A mineração a céu aberto na Serra do Curral causou danos ambientais permanentes que precisam ser compensados. O essencial é que toda a área da mineração tenha uso público coletivo, o que não necessariamente abarca toda a propriedade que eles querem destinar para este projeto", afirmou a promotora Marta Larcher, que em janeiro deste ano impediu, por meio de uma recomendação às autoridades ambientais da prefeitura, que as condicionantes fossem revistas.
Marta Larcher deixa claro que a "área de uso público coletivo" precisa coincidir com a atual área operacional da mineração, que ocupa cerca de 200 mil metros quadrados. E frisa que a prorrogação da licença da lavra a céu aberto no próximo ano está fora de cogitação. "É óbvio que a detonação de dinamite é uma atividade incompatível com a presença de gente morando ao lado", afirmou.
Os investidores também estiveram com o prefeito de Belo Horizonte, Márcio Lacerda (PSB), a quem procuraram atrair acenando com o potencial do empreendimento na arrecadação pública: um adicional de R$ 50 milhões, entre IPTU e ITBI. Ouviram do prefeito que a exploração precisa ser convertida para o modo subterrâneo e que o investimento só irá se viabilizar se os investidores conseguirem vencer as resistências das comunidades ricas e pobres que cercam a área. Lembrou que projetos imobiliários com baixíssima ocupação demográfica, como a construção de casas populares na mata do Isidoro, no extremo norte da cidade, já representaram desgaste político para a prefeitura.
Para outros empreendimentos na cidade, como o da construtora Rossi na área da Pampulha, até pesquisas de opinião realizadas por institutos especializados foram encomendadas.
Da Redação, original Valor Econômico.